Esporte.


Ele não joga mais, mas está envolvido em um dos projetos mais ambiciosos do futebol mundial. Tetracampeão mundial com o Brasil em 1994, Leonardo, hoje dirigente do Paris Saint-Germain, está fazendo algo inédito para um ex-jogador brasileiro. Desde o ano passado, quando saiu do Internazionale, abraçou a "reconstrução" do clube francês com o apoio financeiro de um grupo do Qatar. O objetivo é fortalecer a equipe para torná-la competitiva na Europa e no Mundo, além, é claro, de acabar com um incômodo jejum: há 17 anos que o time da capital não conquista o Campeonato Francês.
- Se nós analisarmos o que é preciso para se ter um grande time, Paris tem tudo. Eu acho que é muito difícil você conseguir numa cidade pequena, onde você não tem um estádio, onde não tem tradição e onde não tem torcedor para transformar aquele clube realmente  em um clube competitivo, de nível europeu - disse Leonardo em entrevista ao Esporte Espetacular.
O centro de treinamento do Paris Saint-Germain, único time da primeira divisão da cidade, conta com dois campos e é modesto, como eram as pretensões do clube no ano de sua fundação, em 1970. Para alacançar voos mais altos, chegou um fundo de investidores do Qatar, com o dinheiro que vem possibilitando transformar tudo. O PSG é um grande investimento do Qatar Investment Authority , uma das peças de um quebra-cabeça que inclui outros interesses até bem mais rentáveis e que correm paralelos ao clube. Um deles é a TV Al Jazeera. O setor de esportes da emissora está se expandindo e se espalhando pelo mundo. Na França, até já comprou os direitos das principais competições esportivas locais.
Leonardo Paris Saint Germain Esporte Espetacular (Foto: Reprodução/TV Globo)Leonardo é o diretor que está comandando a reconstrução do time francês (Foto: Reprodução/TV Globo)
Leonardo jogou no Paris Saint-Germain por pouco mais de um ano, entre 1996 e 1997. Depois, foi para o Milan, onde jogou por mais tempo e virou ídolo, voltando anos depois, já aposentado, em 2008, para assumir um cargo na direção do clube. Com a saída do técnico Carlo Ancelotti em maio de 2009, Leonardo foi alçado ao cargo de treinador.
Apesar de não ter conquistado nenhum técnico no comando da equipe, Leonardo chamou a atenção de dirigentes do arquirrival do Milan, o Inter de Milão. Contratado pelos nerazzurri, numa transferência que gerou muita polêmica - torcedores rossoneri o chamaram de traidor -, Leonardo também não brilhou como treinador, conquistando apenas o título da Copa Itália 2010/2011.
Fora do Inter, em julho de 2011 ele foi o escolhido pelo grupo de investidores do Qatar para assumir o cargo de diretor esportivo e acompanhar o processo de reconstrução da equipe francesa.
- Eu tive 14 anos de Milan, e passei para o Inter. Depois de seis meses no Inter, aparece esse novo Paris Saint-Germain, ou a ideia de um novo PSG. O que me traz aqui é o fato de ter jogado no clube, além de uma carreira na direção de um clube (Milan) e como treinador. Um percurso na área administrativa, de gestão esportiva, do mercado. Isso foi uma coisa forte, o fato de alguém ter comprado (o PSG) e ter lembrado automaticamente de mim - lembrou Leonardo.
Nos gramados ou nos negócios, ele toca a bola como ninguém. Desde o começo da temporada, Leonardo percebeu a necessidade de reforçar o time e, por isso, vem se dedicando a realizar importantes contratações.
Estrelas e novas caras do PSG
Leonardo não está incluído entre os brasileiros de maior sucesso que passaram pelo clube como jogador. No coração do torcedor, Raí antes de todos, e Ronaldinho Gaúcho foram mais marcantes. Antes do dirigente decidir providenciar reforços para o clube, dois outros brasileiros já estavam lá: o atacante Nenê e o lateral-direito Ceará. Em janeiro vieram mais três: Maxwell, lateral-esquerdo, Alex, zagueiro, e Thiago Motta, meio-campo..
Leonardo ancelotti psg homenagem Paris (Foto: Agência AFP)Ancelotti foi a principal contratação do Paris
Saint-Germain (Foto: Agência AFP)
O grupo segundo Leonardo é bom, mas ainda não conta com estrelas dessas conhecidas por todos. De todas as contratações, somente uma está no nível dos planos de destaque mundial do PSG: a do treinador Carlo Ancelotti. Quando comandou o Milan, onde conquistou a Liga dos Campeões em 2007, ele teve Kakácomo a estrela principal de um time vencedor. Ancelotti admira o profissionalismo e a seriedade do brasileiro, que hoje é do Real Madrid, e acredita que ele poderia ser um jogador muito importante para o PSG.
Kaká, Tevez e David Beckham foram nomes que o Paris Saint-Germain namorou no começo do ano. Kaká, que não tem no Real Madrid nem de perto o cartaz e o sucesso que teve no Milan, seria a principal estrela do futebol francês se quisesse ir para Paris. Se vai ser Kaká ou outra estrela do futebol mundial ainda não se sabe. O certo é que o PSG tem vontade e condições para fazer essas contratações e elas vão acontecer.
Outros tempos
Ceará e Nenê viveram o Paris Saint-Germain das vacas magras. Nenê era a estrela do time, e mesmo com a chegada de 12 novos jogadores, continua sendo. Aos 30 anos, o atacante que jogou no Santos de Robinho e Diego e no Palmeiras de Alex, nunca havia feito tantos gols nem tinha sido tão decisivo. E nessa idade já sabe que um time é bem mais que uma coleção de estrelas.
- No papel, o nosso time é o melhor do campeonato, mas grupo, entrosamento, não vai se conseguir em meses - disse o jogador.
Maxwell apresentado no PSG (Foto: Divulgação / Site Oficial)O brasileiro Maxwell trocou o Barcelona pelo Paris
Saint-Germain (Foto: Divulgação / Site Oficial)
Ceará é veterano de Paris. Depois de vencer o Mundial de Clubes com o Internacional em 2006, ele se transferiu para o PSG. Quatro anos e meio depois, ele se vê envolvido por um dilema comum para jogadores que pertencem a clubes com muita competição interna. A questão é saber o que vale mais: se é ficar em um clube que ganha, mas onde se joga pouco por não ser titular, ou mudar para um time onde se tem mais chances de entrar em campo toda semana. Maxwell chegou agora e a sua opinião é totalmente diferente. O jogador deixou o Barcelona, time mais admirado do mundo do futebol porque não queria continuar como coadjuvante.
- Sair do Barcelona nesse momento é complicado. Eu não pensava realmente em sair, até que o Leonardo conversou comigo. E da maneira que ele explicou o projeto que o PSG tinha, eu senti que era a hora de sair - contou Maxwell.
Alex também preferiu ir para Paris para poder jogar. No Chelsea, estava quase fora dos planos, mas lá ele tinha sido treinado por Ancelotti e tinha uma boa relação com o italiano. Para Thiago Motta, que jogava sempre no Inter de Milão, a mudança significou ser valorizado pelos dirigentes, o que não sentia no clube italiano.
Os posters de promoção do Paris St Germain tem os brasileiros como atrações, mas eles não são os destaques. A loja na Avenida Champs Elysees, um dos locais mais emblemáticos da cidade, nunca vendeu tanto. Mas esses são os primeiros passos na tentativa de incluir Paris no cenário do futebol mundial.